No recente artigo publicado na Folha de São Paulo, " Selic em 15% faz bilionário ganhar R$ 400 mil por dia sem produzir nada ", o professor de economia Ladislau Dowbor lança mão de um dado simples, quase didático, para escancarar um problema estrutural da economia brasileira: com a taxa Selic em torno de 15% ao ano, um bilionário que aplica R$ 1 bilhão em títulos públicos pode auferir algo próximo de R$ 400 mil por dia sem produzir absolutamente nada. O impacto do número não é casual. Dowbor usa o exemplo como um recurso pedagógico para revelar uma engrenagem invisível do sistema econômico, muitas vezes naturalizada no debate público, mas que tem efeitos profundos sobre desigualdade, crescimento e democracia. Esse argumento não aparece isolado. Ele se insere em uma reflexão que o autor vem desenvolvendo há décadas sobre a transformação do capitalismo contemporâneo, especialmente em obras de sua autoria como "A era do capital improdutivo" e "O capitalismo se d...
Existe algo profundamente contraditório — e até sintomático — no modo como o conservadorismo atual se posiciona no debate público. Com uma convicção quase teatral, acusa a esquerda de "doutrinar" nas escolas, em universidades, produções culturais e até as relações familiares. Alega que esquerda estaria transformando o ensino e a cultura em instrumentos de manipulação ideológica, contaminando tudo com idéias "subversivas", "globalistas" e "marxistas". Esse discurso soa combativo, indignado, quase messiânico. Mas é justamente aí que mora o contrassenso: os mesmos conservadores que acusam a esquerda de doutrinação, eles próprios constroem e sustentam um aparato cada vez mais eficaz de doutrinação ideológica. Troca-se a tinta vermelha pelo verde e amarelo, mas o método é algumas vezes similar e até pior: repetir chavões, blindar dogmas, deslegitimar o pensamento crítico e reduzir o mundo a uma luta entre "os bons" e "os doutrinadores...