A lógica dos juros altos e o desmonte da economia real

No recente artigo publicado na Folha de São Paulo, "Selic em 15% faz bilionário ganhar R$ 400 mil por dia sem produzir nada", o professor de economia Ladislau Dowbor lança mão de um dado simples, quase didático, para escancarar um problema estrutural da economia brasileira: com a taxa Selic em torno de 15% ao ano, um bilionário que aplica R$ 1 bilhão em títulos públicos pode auferir algo próximo de R$ 400 mil por dia sem produzir absolutamente nada. O impacto do número não é casual. Dowbor usa o exemplo como um recurso pedagógico para revelar uma engrenagem invisível do sistema econômico, muitas vezes naturalizada no debate público, mas que tem efeitos profundos sobre desigualdade, crescimento e democracia.

Esse argumento não aparece isolado. Ele se insere em uma reflexão que o autor vem desenvolvendo há décadas sobre a transformação do capitalismo contemporâneo, especialmente em obras de sua autoria como "A era do capital improdutivo" e "O capitalismo se desloca". Nesses textos, Dowbor sustenta que o eixo dinâmico da economia deixou de ser a produção de bens e serviços socialmente úteis e passou a ser a apropriação de rendas financeiras, patrimoniais e monopolistas. O artigo na Folha é, portanto, menos uma provocação circunstancial e mais uma síntese acessível de uma crítica estrutural: a economia brasileira está organizada para recompensar a pose de riqueza, não a produção de riqueza.

Ao colocar o foco nos juros, Dowbor não está fazendo uma crítica moral aos rentistas, mas uma crítica sistêmica ao modo como as regras do jogo econômico foram configuradas. Seu ponto central é que, quando o sistema passa a remunerar de forma tão generosa o capital parado, ele desloca recursos, expectativas e decisões para longe da economia real, produzindo um círculo vicioso de estanação produtiva e concentração de renda.

 

Juros altos, rentismo e desigualdade estrutural

No centro da argumentação de Dowbor está a idéia de que os juros elevados operam como um mecanismo autmático de transferência de renda da sociedade para os detentores de grandes patrimônios financeiros. Diferentemente do lucro empresarial clássico, que pressupõe risco, inovação e produção, os rendimentos provenientes dos títulos públicos são, na prática, garantidos pelo Estado. Isso significa que a sociedade como um todo financia, via impostos e endividamento público, a remuneração de uma elite rentista.

Em seus textos mais teóricos, Dowbor insiste que essa dinâmica não pode ser tratada como um simples "excesso" do sistema financeiro, mas como uma mutação qualitativa do capitalismo. o rentismo deixa de ser uma distorção marginal e passa a ocupar o centro do funcionamento econômico. A consequência direta disso é o aprofundamento da desigualdade, não apenas porque os ricos ficam mais ricos, mas porque a lógica distributiva do sistema se inverte: em vez de a renda circular pela economia via salários, investimentos e consumo, ela é drenada para aplicações financeiras concentradas.

Esse processo gera o que Dowbor chama de economia de pedágio: cada atividade produtiva, cada serviço e até mesmo o próprio Estado passam a pagar uma espécie de taxa permanente ao sistema financeiro. No caso brasileiro, os juros elevados funcionam como um pedágio macroeconômico, encarecendo crédito, limitando investimentos e restringindo políticas públicas. A desigualdade, nesse sentido, não é um efeito colateral, mas o resultado lógico de um sistema que remunera a riqueza existente mais do que o trabalho e a produção.

 

A desconexão entre finanças e economia real

Outro ponto central do artigo, que ganha maior profundidade quando articulado com a obra do professor Dowbor, é a crescente desconexão entre o sistema financeiro e a economia real. Quando o rendimento financeiro supera, com folga, a taxa média de retorno do investimento produtivo, o capital racionalmente migra para a esfera financeira. Não se trata de uma falha moral dos empresários, mas de um incentivo estrutural perveso.

Dowbor argumenta que esse fenômeno produz uma espécie de deserto produtivo: há capital disponível, mas ele não se converte em fábricas, infraestrutura, pequisa ou empregos. Em vez disso, circula em operação financeiras que geram ganhos privados, mas pouco ou nenhum benefício social. A economia passa a crescer menos não por falta de recursos, mas por falta de direcionamento desses recursos para atividades socialmente úteis.

Esse diagnóstico ajuda a compreender por que economias com juros persistentemente altos tendem a apresentar baixo dinamismo industrial e tecnológico. O problema não é apenas o custo do crédito para pequenas e médias empresas, mas o fato de que todo o sistema de incentivos empurra o capital para longe da produção. A consequência é uma economia travada, dependente de commodities, com baixa sofisticação produtiva e incapaz de gerar empregos de qualidade em escala.

 

A austeridade como ideologia, não como técnica

No artigo, Dowbor também questiona a centralidade do discurso da austeridade fiscal, que costuma justificar juros altos como uma "necessidade técnica" para controlar a inflação e garantir a "confiança dos mercados". Em sua análise mais ampla, ele mostra que essa narrativa opera menos como uma ciência neutra e mais como uma ideologia funcional ao rentismo.

Ao tratar gastos sociais como "despesas" e rendimentos financeiros como "inevitáveis", a austeridade inverte prioridades. Investimentos em saúde, educação, ciência e infraestrutura são vistos como problemas fiscais, enquanto o pagamento de juros aparece como uma obrigação técnica incontornável. Dowbor insiste que essa lógica é economicamente míope: ao enfraquecer a renda das famílias e o investimento público, ela reduz a demanda agregada e, paradoxalmente, compromete o próprio crescimento que supostamente garantiria a sustentabilidade fiscal.

Em diversos de seus textos, ele reforça que políticas sociais não são apenas instrumentos de justiça social, mas motores econômicos. Uma população com renda, acesso a serviços e segurança material consome mais, investe mais em educação e participa de forma mais ativa na economia. Ignorar esse efeito multiplicador é reduzir a economia a um exercício contábil descolado da realidade social.

 

Comparações internacionais e o mito da excepcionalidade

Dowbor frequentemente recorre a comparações internacionais para desmontar o argumento de que juros elevados seriam uma inevitabilidade brasileira. Países com diferentes modelos econômicos, graus variados de desenvolvimento e sistemas políticos distintos consegem operar com juros significativamente mais baixos sem colapsar suas economias. Isso sugere que o problema não é técnico, mas político e institucional.

Ao destacar esses contrastes, Dowbor chama atenção para o poder do sistema financeiro na definição das políticas macroeconômicas. No Brasil, os juros elevados não são apenas uma resposta à inflação, mas parte de um arranjo institucional que privilegia a remuneração do capital financeiro em detrimento do desenvolvimento produtivo. Essa escolha tem custos sociais elevados, que raramente entram no cálculo econômico oficial.

 

O papel do Estado e a função social da economia

Por fim, o artigo dialoga com uma das teses mais consistentes do professor Dowbor: a necessidade de resgatar a função social da economia. Para ele, o Estado não deve ser um mero garantidor da rentabilidade financeira, mas um agente ativo na reorganização dos fluxos econômicos. Isso inclui regular o sistema financeiro, orientar o crédito, estimular investimentos produtivos e reduzir mecanismos de extração rentista.

Essa visão não implica estatismo cego, mas uma redefinição das prioridades econômicas. Dowbor argumenta que mercados só funcionam bem quando estão inseridos em instituições que orientam seus resultados para objetivos socialmente desejáveis. Quando o Estado abdica desse papel, a economia tende a se organizar em torno da maximização de ganhos privados de curto prazo, mesmo que isso comprometa o bem-estar coletivo no longo prazo.

O artigo do professor Ladislau Dowbor não é apenas uma crítica aos juros altos, mas uma janela para compreender o funcionamento profundo da economia brasileira contemporânea. Ao mostrar como um bilionário pode enriquecer diariamente sem produzir nada, ele expõe uma engrenagem que transfere renda, poder e decisões econômicas para um circuito financeiro altamente concentrado.

Quando articulado com o conjunto de sua obra, o texto ganha ainda mais força. Ele revela que o problema não é conjuntural, mas estrutural: trata-se de um modelo econômico que privilegia o capital improdutivo, enfraquece a economia real e aprofunda ainda mais as desigualdades. Nesse sentido, a crítica de Dowbor não é apenas econômica, mas também política e social.

Sua importância está justamente em recolocar perguntas fundamentais no centro do debate: para quem a economia funciona? Quem se beneficia das regras atuais? E que tipo de desenvolvimento queremos promover? Ao fazer isso, Dowbor contribui para uma análise econômica mais robusta, menos capturada por dogmas financeiros e mais atenta às condições concretas de vida da maioria da população.

 

Artigo de Ladislau Dowbor na Folha de São Paulo 

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