Existe algo profundamente contraditório — e até sintomático — no modo como o conservadorismo atual se posiciona no debate público. Com uma convicção quase teatral, acusa a esquerda de "doutrinar" nas escolas, em universidades, produções culturais e até as relações familiares. Alega que esquerda estaria transformando o ensino e a cultura em instrumentos de manipulação ideológica, contaminando tudo com idéias "subversivas", "globalistas" e "marxistas". Esse discurso soa combativo, indignado, quase messiânico. Mas é justamente aí que mora o contrassenso: os mesmos conservadores que acusam a esquerda de doutrinação, eles próprios constroem e sustentam um aparato cada vez mais eficaz de doutrinação ideológica. Troca-se a tinta vermelha pelo verde e amarelo, mas o método é algumas vezes similar e até pior: repetir chavões, blindar dogmas, deslegitimar o pensamento crítico e reduzir o mundo a uma luta entre "os bons" e "os doutrinadores...
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