O socialismo imaginário do patriotismo tabajara: um ensaio sobre os erros, distorções e mal-entendidos de uma visão delirante

Há uma certa modinha naquilo que se classifica como "pensamento conservador contemporâneo": sempre que a sociedade muda, aparece alguém gritando "socialismo!". O simples aumento de direitos trabalhistas, a ampliação do acesso às universidades, ou mesmo o debate crítico sobre o orçamento — tudo vira prenúncio de um novo gulag.

Um artigo muito patriótico intitulado "O socialismo travestido de democracia na era pós-socialista", acaba sendo um exemplo bastante didático dessa modinha catastrófica: um texto que tenta parecer uma reflexão filosófica sobre democracia, mas acaba sendo mais uma cartilha ideológica de delírios paranoicos sobre um suposto "projeto socialista mundial" que só se materializa nas mentes de gente como o autor do referido texto.

O problema não é ser conservador. É argumentar confundindo filosofia com corrente de grupos de WhatsApp. 


 

Quando toda democracia é socialismo

 O patriota inicia seu texto da seguinte forma:

As novas formas de democracia — participativa, deliberativa e associativa — nada mais são do que o socialismo reconfigurado para parecer democrático.

Esse é o primeiro tropeço teórico grave. Ele confunde formas de deliberação política com modelo econômico. Democracia deliberativa não é "socialismo com outro nome", é uma corrente dentro da teoria política que busca ampliar a legitimidade das decisões públicas através da participação cidadã e da comunicação racional.

Jürgen Habermas, que ele cita, jamais defendeu a planificação econômica nem o controle estatal total. Pelo contrário: Habermas critica tanto o intervencionismo autoritário quanto o neoliberalismo desregulado. O que ele propõe é que as decisões políticas sejam fundamentadas no debate público e racional, e não na força de quem tem mais dinheiro ou poder.

O patriota lê isso como se fosse uma estratégia de dominação disfarçada — o que seria, no máximo, uma leitura para se colocar em uma história fictícia, de um livro fantasioso distópico, mas analiticamente, profundamente equivocada. Em "Teoria do agir comunicativo", Habermas diz:

A racionalidade comunicativa não é instrumento de controle, mas a condição de uma convivência emancipada de coerção exterrna.

Ou seja, o posto do que o patriota fala. Quando ele escreve que essas formas de democracia "tem como objetivo o controle social da liberdade", ele distorce e inverte totalmente o sentido do pensador ao qual faz referência.

 

A liberdade negativa de quem teme o vizinho

O patriota repete várias vezes que "a liberdade social é um cavalo de Troia do controle estatal", e cita Isaiah Berlin como se este fosse um arauto do liberalismo absoluto. Ele escreve:

Como alertou Berlin, a liberdade positiva leva inevitavelmente à tirania. Basta que alguém diga o que é melhor para todos.

 Aqui, ele mistura dois planos diferentes: o alerta histórico de Berlin com um determinismo ideológico que ele mesmo rejeitava. Na obra "Pluralismo e dois conceitos de liberdade", Berlin mostra os riscos de distorcer a liberdade positiva, mas deixa claro que ela não é sinônimo de tirania. Sua preocupação é política, não ontológica.

Isaiah Berlin inclusive reconhece que sem certas condições sociais — educação, segurança, renda mínima — a liberdade negativa se torna o privilégio de poucos. Ele escreve:

A igualdade de oportunidades é, em certo grau, condição de liberdade efetiva.

O patriota faz, portanto, uma leitura completamente equivocada dessa referência. Para ele, qualquer tentativa de corrigir desigualdades é uma forma de "engenharia social". Mas ironicamente, ao defender apenas a liberdade negativa, ele cai no paradoxo de defender a liberdade dos fortes contra a dos fracos — algo que o próprio Berlin chamava de "liberdade para os lobos, morte para os cordeiros". 

 

O socialismo que só existe na cabeça do patriota tabajara

Um dos pontos mais caricatos do artigo patriótico é este:

Desde o pós-guerra, a moral social ocidental migrou da liberdade individual para a liberdade social — uma moral socialista travestida de democracia, conduzida por intelectuais burocratas.

 Além de não apresentar nenhuma evidência empírica disso, o patriota confunde o surgimento do Estado de bem-estar social com uma "moral socialista". Na verdade, o chamado welfare state foi um projeto liberal-democrático, criado para conter os excessos do capitalismo e evitar o avanço do comunismo.

Teóricos liberais como John Maynard Keynes e William Beveridge defenderam políticas sociais como forma de preservar o mercado e garantir coesão social. Nada de sovietes ou coletivização dos meios de produção. É uma economia mista, e não um disfarce do socialismo.

O patriota transforma políticas de inclusão e regulação em um "programa de dominação socialista global", ignorando completamente que países como Alemanha, Canadá e Noruega — todos liberais e capitalistas — adotam essas políticas há décadas e não viraram ditaduras socialistas. É o tipo de raciocínio que confunde vacinação com envenenamento porque viu uma agulha.

 

O medo como argumento

Quando o patriota escreve:

As democracias deliberativas buscam soluções racionais para todos os problemas humanos — e isso é o prenúncio do totalitarismo, do Ministério da Verdade de Orwell.

 A falácia salta aos olhos. Ele cria um elo imaginário entre o uso da razão na política e o totalitarismo. Habermas, novamente, defende que o uso público da razão é o antídoto contra a manipulação e o totalitarismo.

O que o patriota faz aqui é uma versão moderna da "ladeira escorregadia": começa em uma assembleia de bairro e termina num campo de reeducação. É o medo virando método de argumentação.

E pra piorar, ele cita Hayek como se fosse a prova cabal de que "toda tentativa de igualdade termina em tirania". Em "O caminho da servidão", Hayek realmente alerta sobre os riscos da planificação central, mas reconhece que algum grau de regulação e assistência social é compatível com a liberdade individual. Ele escreve:

Há amplo espaço para o Estado prover segurança social sem pôr em risco a liberdade individual.

 O patriota, porém, ao que tudo indica, prefere ficar com a versão simplificada e caricata: Hayek como profeta do apocalipse socialista. É o mesmo que citar Freud para dizer que sonhar é coisa do demônio.

 

As contradições de quem briga com o próprio argumento

Há um parágrafo em que o patriota afirma:

Vivemos sob o domínio de elites progressistas que controlam a cultura e as instituições.

 Logo depois, prossegue dizendo:

A maioria conservadora, silenciosa e desorganizada, é hoje a verdadeira excluída.

 Se a esquerda supostamente controla tudo, como pode a maioria ser conservadora? É uma contradição estrutural que o patriota traz no seu pensamento e no texto. A esquerda seria uma minoria hegemônica que domina uma maioria impotente? — uma descrição que desafia qualquer lógica política.

E quando ele acusa a democracia participativa de elitismo ("um modelo controlado por tecnocratas acadêmicos"), apresenta ao leitor com bons olhos uma nova incoerência: quer denunciar as tais elites, mas rejeita justamente os mecanismos de participação popular que podem reduzi-las. É como reclamar da fome e criticar quem planta.

 

O método da autoridade vaga

No meio de tantas patriotices, o patriota abusa de citações ornamentais. Em outro trecho ele escreve:

Como bem apontou Boaventura de Sousa Santos, o empreendedorismo nas escolas é antidemocrático, pois reforça a desigualdade.

 Esse trecho nunca foi dito por Boaventura em parte alguma e em nenhum de seus escritos. O que o sociólogo faz é a crítica do discurso neoliberal de empreendedorismo como panaceia, não o ato de empreender em si. Em "A gramática do tempo", Boaventura escreve:

O problema do neoliberalismo é transformar o indivíduo em empresa, e a solidariedade em concorrência.

 Isso não é condenar o empreendedorismo, mas sim alertar para o risco de converter toda experiência humana em mercado. O patriota distorce, recorta e transforma a crítica sociológica em caricatura ideológica. É como acusar um cardiologista de ser contra o coração porque alertou sobre o colesterol.

 

Por quê essa paranoia parece estar na moda?

O texto do patriota não é apenas uma coletânea de erros teóricos e distorções falaciosas. Ele ilustra bem o tipo de mentalidade delirante específica que circula em meios conservadores do cenário político atual: o medo da participação popular. Quando ele escreve que "o cidadão comum, levado a decidir coletivamente, se torna instrumento de manipulação", está dizendo, na prática, é que o povo não sabe decidir — só as elites liberais conservadoras sabem.

Aí é possível ver o que Norberto Bobbio chamava de "contradição essencial do liberalismo conservador": defender a liberdade em teoria, mas temer suas consequências quando ela se democratiza. Bobbio, em "O futuro da democracia", explica que o desafio moderno é justamente ampliar a participação sem sacrificar a eficiência — não eliminá-la.

Vemos que o patriota, porém, parece preferir o conforto de uma democracia sem povo, onde a política é feita por quem tem "responsabilidade" (ou seja, quem pensa como ele). É o velho truque de chamar de "liberdade" aquilo que, no fundo, é medo do coletivo.

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