A mente esquerdista: as causas psicológicas da loucura política - Lyle Rossiter

O livro "A mente esquerdista", de Lyle H. Rossiter, apresenta-se como uma obra de psicologia política que pretende explicar o "esquerdismo" moderno como uma forma de distúrbio de desenvolvimento e de "loucura política". Ele combina biologia evolucionista, psicologia do desenvolvimento (especialmente Erik Erikson), teoria ultraliberal e críticas ao Estado de bem-estar para defender que apenas uma sociedade de "liberdade ordenada", com governo mínimo e forte proteção à propriedade privada, é compatível com a natureza humana.

A partir dessa moldura, Rossiter afirma que a "agenda esquerdista" — estatismo, políticas de bem-estar social, direitos sociais, igualdade material — é resultado de falhas na infância que produzem adultos dependentes, ressentidos e hostis à autonomia.

O livro tem uma estrutura de tratado: na Parte I ele expõe sua visão de natureza humana e de liberdade; na Parte II tenta dar um verniz psicológico "científico" a tais teses; na Parte III aplica esse aparato para descrever "a mente esquerdisa benigna" e "radical" como "neuroses" e "patologias de personalidade".

 

Psicologização do adversário político

Um problema central do livro é seu projeto básico: transformar uma posição política legítima (liberalismo social, social-democracia, esquerda em geral) em uma espécie de "diagnóstico clínico".

Rossiter afirma explicitamente que a "agenda esquerdista" é supostamente uma "distorção patológica dos instintos sociais normais" e que "a agenda esquerdista é a neurose esquerdista transformada em manifesto". Na Parte III ele fala de "a mente esquerdista benigna" e "a mente esquerdista radical" como se estivesse descrevendo transtornos de personalidade, com sintomas, defesas e "tratamento".

Ele descreve, por exemplo, que o esquerdista radical "procura um governo paternal que cuide dele por toda a vida" e que "sua agenda política é um conglomerado irracional de defesas neuróticas que os esquerdistas modernos utilizam para seu equilíbrio mental e emocional".

Aqui aparecem vários problemas graves:

A confusão entre desacordo político e doença mental. Discordar da preferência de Rossiter por Estado mínimo e livre mercado passa a ser sinal de "neurose", "imaturidade" ou "falhas de desenvolvimento". Em vez de discutir argumentos, ele coloca o opositor no divã e, no limite, na posição de paciente.

Violação da própria ética psiquiátrica. Ao psicopatologizar um grupo inteiro, rotulado vagamente como "esquerda moderna", ele aplica linguagem clínica fora do contexto terapêutico, com um forte viés ideológico. Não há avaliação individual, mas generalizações ideológicas.

Circularidade. Quem defende políticas que ele desaprova é "neurótico"; e é "neurótico" justamente porque defende essas políticas. A "crítica vira um círculo vicioso: a posição política é prova do "diagnóstico", e o diagnóstico "explica a posição política".

Em termos argumentativos, isso é um grande atalho: em vez de mostrar que políticas de bem-estar, regulação ou redistribuição são ruins com dados e comparação de modelos, ele diz que essas políticas são expressões de "dependência infantil" e "ressentimento" dos seus defensores. Isso transforma divergência racional em suspeita psiquiátrica, o que é algo meramente retórico e não científico.

 

Uso seletivo e distorcido de teorias do desenvolvimento

O livro se apoia fortemente em Erik Erikson e em conceitos como "confiança básica", "autonomia", "iniciativa", "intimidade" e "generatividade". Rossiter faz uma espécie de recapitulação das oito fases de Erikson e as reinterpreta em termos de sua filosofia individualista.

Não há problema algum em usar Erikson, mas sim em forçar a teoria para encaixar um roteiro ideológico pré-fabricado:

Ele descreve o desenvolvimento saudável como naturalmente conduzindo a um adulto que valoriza governo limitado, responsabilidade individual, propriedade privada e livre mercado. E falhas em fases do desenvolvimento (como confiança básica, autonomia ou iniciativa) seriam a raiz psicológica de tendências "coletivistas", desejo de Estado forte, direitos sociais e políticas redistributivas.

Por exemplo, sobre a "desconfiança básica da mente esquerdista raical":

Baseado em suas deficiências precoces na confiança, o ceticismo do esquerdista radical sobre a vida é arraigado e cínico... Por não compreender as origens de sua dor, na infância, ele projeta sua neurose num mundo contemporâneo de vilões, vítimas e heróis imaginários.

E mais adiante:

O resultado da desconfiança é a crença de que as pessoas não conseguem criar boas vidas para si mesmas trabalhando juntas, voluntariamente, e que precisam que suas relações sejam supervisionadas pelo Estado.

Isso é problemático por vários motivos. Não há evidência empírica apresentada ligando estilos de apego ou falhas em fases de Erikson a preferências por políticas de bem-estar social ou por mais Estado. O que temos é uma narrativa ideológica, não estudo.

Ele ignora a pluralidade de trajetórias. Várias pessoas tem desenvolvimento emocional saudável e, ainda assim, concluem racionalmente que certos serviços (saúde pública, aposentadoria, regulação) funcionam melhor sob coordenação estatal ou mista. Isso não é sinal de "trauma", mas de análise política diferente.

Existe ainda a apropriação ideológica de teorias clínicas. Conceitos que em Erikson são usados para pensar saúde e sofrimento psíquico são "traduzidos" em alinhamento com a direita conservadora: autonomia passa a signficar, na prática, rejeição de qualquer Estado social; generatividade vira quase sinônimo de caridade privada e rejeição de políticas coletivas.

Em suma, Rossiter parte da conclusão (Estado mínimo é saudável, Estado social é patológico) e então reorganiza a teoria do desenvolvimento com alguns apanhados retóricos para chegar nela. Isso é um uso meramente ideológico, não científico, da psicologia.

 

Falácia do espantalho: o que ele chama de "esquerda"

Outro problema forte é a definição extemamente vaga e caricata que Rossiter dá de "esquerdismo". Em vários trechos ele fala de "agenda esquerdista moderna, com suas políticas estatistas de bem-estar, relativismo moral e regulação invasiva"; "esquerdismo radical" como sinônimo de comunismo, socialismo, progressismo, feminismo radical, ambientalismo, multiculturalismo, Estado de bem-estar social, politicamente correto etc.

Ele agrupa sob o mesmo rótulo comunismo soviético, social-democracia europeia, liberalismo norte-americano, programas como Social Security, Medicare, ações afirmativas, e até movimentos religiosos de justiça social. Essa fusão de coisas distintas gera espantalhos: qualquer defesa de políticas redistributivas moderadas vira sinal de simpatia pelo "coletivismo totalitário". Críticas pontuais a abusos empresariais tornam-se prova de "ódio ao mercado". Feministas que denunciam violência de gênero são representadas como querendo "dominar e eliminar os homens".

Além disso, ele sempre apresenta a "agenda esquerdista" como se fosse totalmente dominante no Ocidente, o que simplifica demais a realidade institucional: democracias liberais modernas são misturas de elementos de mercado, Estado social, tradições liberais, conservadoras e religiosas. Não são nem "Estado mínimo" nem "coletivismo total".

Essa montagem conceitual permite a Rossiter refutar uma "esquerda" que, em boa parte, ele próprio inventa — extrema, homogênea, infantil, irracional — em vez de engajar com versões fortes e moderadas de teorias igualitárias, social-democratas ou liberais de esquerda.

 

Redução moralista da política à economia de livre mercado

Outro eixo do livro é a idéia de que há uma única organização social compatível com a natureza humana: capitalismo de livre mercado com governo mínimo, forte proteção à propriedade e contratos, e função estatal quase só de polícia, justiça e defesa.

Ele constrói isso com um esquema de "direitos básicos" (auto-propriedade, primeira posse, propiedade e troca, autodefesa, compensação por desapropriação, acesso limitado em emergências, restituição por danos). A partir daí conclui que:

As regras básicas não apenas permitem o capitalismo, mas o implicam

e que sistemas socialistas, comunistas ou de Estado de bem-estar social são necessariamente injustos e destrutivos. Existem aqui vários saltos. Ele confunde um tipo específico de liberalismo econômico (libertarianismo) com a única forma possível de socedade livre, descartando modelos de capitalismo regulado, Estado social liberal, social-democracias, que combinam mercado com proteção social.

Tratar qualquer forma de política redistributiva como "roubo" ignora a própria teoria liberal clássica, na qual a tributação pode ser justificada por contrato social ou por benefícios mútuos (segurança, infraestrutura, educação). Diversos liberais não-socialistas aceitam isso.

Ao falar em "direitos negativos x direitos aformativos", ele assume que direitos sociais (à saúde básica, educação, renda mínima) são sempre imorais e incoerentes, sem considerar argumentos de que sem esses direitos, as liberdades negativas viram privilégios de poucos.

O próprio modo como ele usa o exemplo de Robinson Crusoé e Sexta-Feira é enviesado: toda construção "natural" converge para justificar propriedade privada e contratos, mas não discute a assimetria de poder, as condições iniciais, ou as formas pelas quais regras podem ser desenhadas para proteger os mais fracos sem abolir a liberdade. Em resumo, há uma falácia de falsa dicotomia: ou aceitamos o modelo econômico ultraliberal radical de Rossiter como "única alternativa compatível" ou caímos em tirania coletivista. Na realidade, o espectro institucional é bem mais amplo.

 

Desprezo sistemático por evidências empíricas

Embora haja um capítulo inteiro sobre "status científico das descrições comportamentais", o livro não traz dados de nenhum estudo empírico comparando traços depersonalidade e preferências políticas. Nenhuma análise sistemática mostrando que pessoas de esquerda têm mais transtornos ou falhas de desenvolvimento que conservadores. Nenhum exame de indicadores objetivos de bem-estar em países com políticas mais ou menos "esquerdistas".

Ele cita autores como Hazlitt, Hayek, Sowell, Barnett, mas sempre como "autoridades confirmadoras", não como parte de uma discussão empírica. Ao mesmo tempo, faz afirmações como:

Os programas assistencialistas do governo corrompem o caráter da nação;

A agenda esquerdista moderna cria uma sociedade irracional de adultos infantilizados que dependem dos cuidados do governo;

Todas as alternativas históricas do esquerdismo de cumprir essas fantasias trouxeram danos catastróficos sobre milhões.

Essas proposições são tratadas como "conclusões óbvias", mas não são demonstradas. Não há, por exemplo, comparação entre indicadores de saúde, educação e pobreza em países nórdicos social-democratas e países com Estado mínimo. Nem sequer há distinção entre políticas redistributivas moderadas e regimes autoritários. Isso transforma o livro em um ensaio de opinião com alguma linguagem técnica, não em obra de ciência política ou psicologia empírica.

 

Falhas conceituais sobre altruísmo e solidariedade

Rossiter tem capítulos até interessantes sobre altruísmo, ego competente e "geratividade", mas chega a conclusões bastante unilaterais. Ele sustenta que o altruísmo genuíno só floresce em nível individual e comunitário; quando o Estado assume funções assistenciais, ele "usurpa" e "sufoca" a caridade e a cooperação voluntária; programas de bem-estar social "infantilizam" as pessoas e as transformam em dependentes permanentes.

Ele chega a ironizar, num trecho, uma espécie de "mensagem implícita" do Estado ao cidadão:

Você não precisa ajudar os pobres da sua comunidade, nós do governo faremos isso com o seu dinheiro."

Há uma meia-verdade aqui. É real que transferir tudo para o Estado pode, sim, enfraquecer redes locais de solidariedade e responsabilidade. Mas o livro ignora pontos importantes. Sociedades modernas são muito maiores e mais complexas do que vilas e paróquias; certos problemas (como saúde de alta complexidade, seguro desemprego em massa, pensões) não são facilmente resolvidos só com caridade privada.

Em muitos países com Estado social forte, há também altos níveis de associativismo, voluntariado e doações. Estado e sociedade civil não são necessariamente substitutos, podem ser complementares. A alternativa a políticas públicas não é um mundo idílico de comunidades solidárias; frequentemente é simplesmente ausência de proteção e pobreza crônica.

Ao tratar toda transferência pública como "roubo" e toda proteção social como "infantilização", o autor reduz moralmente uma questão que é também técnica: como distribuir riscos e custos de maneira eficiente e justa numa sociedade complexa.

 

Exageros retóricos e demonização

O livro é repleto de linguagem carregada: "maior tragédia a história americana" para falar da escravidão, mas também "grande tragédia" para programas assistenciais. "Loucura""psicopatia""sociopatia" aplicadas a governos e agendas políticas. A esquerda como "cavalo de Troia" que corrói o caráter nacional, e assim por diante.

Em muitos trechos da Parte III, a "confissão em primeira pessoa" da mente esquerdista é uma caricatura que beira o panfleto:

Eu não quero jogar pelas regras. Estou disposto a manipular, trapacear e mentir sem me sentir culpado para vencer as batalhas da vida.

Eu odeio a liberdade individual, pois se os outros forem autônomos, então eles não terão de fazer o que eu quero.

Isso não é análise, é dramatização. Ao colocar na boca do "esquerdista" frases desse tipo, o autor reforça a visão de que o adversário é moralmente inferior, preguiçoso, invejoso, manipulador — enfim, indigno de consideração racional. Esse tom explica parte do apelo do livro (ver adiante), mas também compromete sua credibilidade como trabalho sério de psicologia política. Ele fala mais à emoção de um grupo já convencido do que ao espírito crítico de um leitor aberto.

 

Por quê o livro agrada tanto ao público conservador?

Apesar (ou em parte por causa) de todos esses problemas, "A mente esquerdista" faz sucesso em círculos conservadores e libertários. Há algumas razões plausíveis. Oferece uma narrativa simples e reconfortante. O livro não diz ao leitor conservador: "você não está apenas politicamente certo; você é psicologicamente mais maduro e saudável". Quem discorda não está só errado, está "traumatizado", "neurótico", "infantilizado". Isso é altamente reforçador para quem se sente cercado por discursos progressistas nas universidades, mídia e política.

Dá roupa "científica" a convicções prévias. Muitos conservadores já descofiam de um Estado grande, políticas de bem-star social, impostos, multiculturalismo, feminismo etc. Rossiter lhes oferece uma justificação "psicológica" e "biológica" para tudo isso, citando Erikson, Hayek, Hazlitt. Mesmo sem dados, o uso de linguagem técnica empresta autoridade.

Transforma frustrações políticas em diagnóstico moral. O livro traduz conflitos reais — sobre impostos, programas sociais, costumes — em luta entre "adultos responsáveis" e "crianças mimadas que querem ser adotadas pelo Estado". Isso canaliza ressentimentos e oferece um vocabulário forte para usar em debates cotidianos.

Funciona como uma espécie de manual de polemização. A estrutura do livro, especialmente a Parte III, oferece frases, rótulos e conceitos que podem ser usados em debates: "Estado-babá", "neurose da vítima", "direitos afirmativos como falácias", "sociedade competente vs sociedade coletivista". Isso é útil em ambientes de militância ou argumentação ideológica.

Explora medos reais de declínio cultural. Rossiter descreve, com base em autores como Black e Bennett, vários sinais de "declínio": aumento do crime, ilegitimidade, divórcio, falência de escolas, cultura midiática superficial. Muitos leitores reconhecem esses fenômenos no cotidiano e associam facilmente isso à "agenda esquerdista", ainda que a relação causal não seja demonstrada.

 

Porque não é um livro de psiquiatria, e sim um panfleto ideológico disfarçado

Certas pessoas ao ler o livro de Rossiter, saem da leitura com a sensação de terem descoberto uma "grande verdade": que a esquerda política seria, na verdade, uma forma de distúrbio mental coletivo. E por quê isso acontece? Porque o livro diz exatamente o que essas pessoas já acreditavam, mas agora com o peso de um suposto "aval médico".

Isso é um viés de confirmação — fenômeno bastante conhecido nas ciências cognitivas. É quando a pessoa dá valor apenas àquilo que confirma suas crenças pré-existentes, ignorando dados, argumentos ou evidências que contrariem essa crenças. E Rossiter, com seu título de psiquiatra, oferece o pacote perfeito para quem quer acreditar que toda pessoa de esquerda é doente, imatura ou ressentida — sem ter que lidar com provas, contrapontos ou complexidades.

Mas quando se olha com calma e espírito crítico, logo se identifica que o livro não tem rigor científico nenhum. O que ele faz, na prática, é usar linguagem psiquiátrica para justificar rótulos políticos. Mais adiante veremos porque.

É um livro sem qualquer critério diagnóstico real. Para afirmar que alguém tem um transtorno mental, é preciso usar critérios formais, como os do DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) ou da CID-11 (Classificação Internacional de Doenças). Esses manuais são referências mundiais para o diagnóstico psiquiátrico.

No entanto, Rossiter não usa nenhum desses critérios. Ele simplesmente declara que o comportamento de pessoas de esquerda se encaixam em algo que ele chama de "disfunção mental", sem explicar como chegou a essa conclusão, nem apresentar evidência empírica. O termo "mente esquerdista" não existe na medicina. É portanto, uma construção ideológica.

Falta de método científico: é tudo baseado em achismo. Um livro técnico de psiquiatria precisa deixar claro qual método usou:

  • Com que grupo de pessoas trabalhou?
  • Como coletou os dados?
  • Quais testes aplicou?
  • Como analisou os resultados?

No livro, Rossiter não especifica nenhum destes pontos. Seu livro é composto apenas por opiniões pessoais, frases de efeito e arquétipos ideológicos, como se toda pessoa de esquerda fosse uma mistura de adolescente rebelde com parasita social. Não há estudo de caso, nem pesquisa, nem revisão de pares — absolutamente nada que sustente suas afirmações.

Ele recorre ao uso de linguagem técnica ("transtorno de personalidade", "distorção da realidade") sem contexto clínico, o que dá a falsa impressão de que está falando com base científica. Mas, na prática, está apenas usando jargões médicos para dar aparência séria a opiniões de viés ideológico.

Uso de esteriótipos como se fossem diagnósticos. Ao longo do livro, é constrtuída uma imagem genérica do que Rossiter chama de "esquerdista típico": imaturo, ressentido, odeia a autoridade, depende do Estado, invejoso dos bem-sucedidos, preguiçoso. Esses traços são apresentados como se fossem sintomas clínicos, mas na verdade são esteriótipos comuns em discursos ideológicos. É o tipo de narrativa que você encontra em posts de redes sociais ou em colunas de opinião rasas, não em textos científicos.

Na prática, ele está dizendo: "Se você não gosta da esquerda, aqui está um psiquiatra dizendo que você está certo". Isso agrada o leitor que já pensa assim, e que agora se sente validado por alguém que usa jaleco.

Falta de simetria analítica. Outro ponto curioso do livro é que Rossiter diz que apenas um lado é doente. Ele não aplica os mesmos critérios à direita. Ele nunca se pergunta, por exemplo, se a obsessão por autoridade, o medo do diferente ou o pensamento conspiratório típico de setores conservadores poderiam ser sinais de transtornos. Ele apenas descreve o conservador como "racional", "moralmente maduro", "responsável" — um verdadeiro modelo de sanidade. A análise é totalmente enviesada e desequilibrada. Não é ciência.

Quebra de ética profissional. O código de ética médica é muito claro: não se pode diagnosticar alguém sem exame direto, e muito menos fazer diagnósticos públicos ou generalizados sobre grupos inteiros. Rossiter viola essa pricípio, ao afirmar que milhões de pessoas — todas que se identificam com idéias de esquerda — sofrem de uma suposta disfunção mental coletiva. Ele usa seu diploma para dar peso a um julgamento moral e ideológico, o que é gravíssimo em termos profissionais, éticos e metodológicos.

"A mente esquerdista" não é um livro de psiquiatria. É um livro de propaganda ideológica que se esconde sb o manto da medicina para parecer sério. Seu objetivo não é explicar nada, mas reforçar visões enviesadas e confortar leitores conservadores que só vêem o mundo com uma ótica dicotômica frágil.

Se fosse uma obra honesta, ela partiria do princípio de que pessoas com visões diferentes podem ter motivações complexas, valores legítimos e racionalidades próprias — e que a tarefa da psicologia política é compreender essas diferenças, não transformá-las em "diagnóstico". Rossiter não faz isso. Ele não analisa: ele rotula. E o faz com jargões médicos que mascaram o fato de que, no fundo, o livro é apenas um panfleto ideológico travestido de ciência.

Se alguém usar esse livro como "prova cabal" de que a esquerda é doente, desconfie. Essa pessoa não está interessada em ciência. Está interessada em justificar o seu próprio viés ideológico.

 

Observação

O leitor pode achar parecidas algumas partes desta resenha sobre o livro "A mente esquerdista". Essa sensação pode surgir porque Rossiter usa na Parte III do livro as mesmas idéias e argumentos da Parte II, causando uma certa redundância retórica, com algumas pequenas variações: dependência x autonomia, família e autoridade como "centro da moral", a esquerda como produto de um "fracasso emocional", coletivismo como patologia etc.

Há bastante repetição de argumentos com o aumento na intensidade retórica, mas com pouca ou nenhuma inovação conceitual. A similaridade em alguns parágrafos refletem essa redundância presente na obra.

 

Agradecimentos

Registro aqui um agradecimento especial à profª dra. Nazaré Loureiro, amiga e professora aposentada de psiquiatria do Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS) da Universidade Federal do Pará, pelo auxílio no entendimento de alguns pontos da obra, e por disponibilizar um pouco de seu tempo para ajudar a fazer uma análise técnica do livro.  

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